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Educação, escrita e combate ao plágio

 

 

Alessandra Junho Gama Belo [1]

Ana Terra Mejia Munhoz [2]

 

 

O tema do plágio gera crescentes inquietações quanto à ética e honestidade na escrita. O plágio é um desvio de autoria, pois consiste na apropriação indevida de ideias ou palavras sem que se dê crédito ao autor original; ele desrespeita, de um lado, o direito do autor de ser reconhecido por seu trabalho e, de outro, a expectativa do leitor de acessar um texto inédito (DINIZ e MUNHOZ, 2011).[3],[4]

 

No Brasil, a preocupação ética com esse tema tem inspirado ações de distintas entidades. Entre 28 de maio e 1° de junho de 2012, realizou-se o II Encontro Brasileiro de Integridade em Pesquisa, Ética na Ciência e em Publicações (Brispe), nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, com o apoio de organizações como CNPq, OAB, Ibict, Fapesp e SBPC. Entre as questões consideradas na Declaração Conjunta sobre Integridade em Pesquisa do Encontro (2012, p. 556), está seguinte recomendação:

Que as instituições do país [...] conscientizem os alunos que o plágio é uma violação acadêmica, seja no ensino fundamental, ensino médio ou universitário. As instituições de ensino e pesquisa do país devem fornecer materiais educativos que mostrem que o plágio em monografias, dissertações e teses também é, além de violação acadêmica, uma prática ilegal no Brasil.

 

Além disso, o CNPq, a Capes e a OAB têm se manifestado a respeito do plágio e outras fraudes, como a compra e venda de trabalhos acadêmicos — que, embora também constitua uma infração ética, não equivale ao plágio, pois não há cópia, e sim a violação de um dever de autoria do estudante que paga para que alguém faça seu trabalho. A OAB (2010) divulgou o documento Proposta de Adoção de Medidas para Prevenção do Plágio nas Instituições de Ensino e do Comércio Ilegal de Monografias, de autoria do advogado e professor universitário Ricardo Bacelar Paiva. O CNPq (2011) publicou, em seu site, diretrizes para garantir a integridade acadêmica e a qualidade do trabalho científico. E a postura da Capes (2011, p. 1), por sua vez, foi reforçar as orientações dadas no documento da OAB, entre elasa conscientização de estudantes sobre propriedade intelectual, a fim de coibir o plágio.O texto da OAB sugere, ainda, medidas como a adoção de softwares de detecção de plágio e a criação de comissões específicas para avaliar possíveis casos de cópia indevida.

 

Esse posicionamento da OAB, do CNPq, da CAPES e dos membros participantes do grupo de trabalho do II Brispe vai ao encontro do que é defendido por Munhoz e Diniz (2011, p. 54), para quem

estratégias como o uso de softwares caça-plágio e a instauração de comissões de especialistas são, talvez, inevitáveis para o controle do plágio; entretanto, esse não deve ser o objetivo das universidades, dos centros de pesquisa e dos editores de periódicos. Antes, apostamos numa postura ética de prevenção ao plágio, por dois caminhos: no campo da ciência, por meio do rigor na exigência de respeito às normas da comunicação científica, bem como [...] da comunidade científica como próprio sistema de controle; e no campo educacional, por meio da adoção de uma cultura de formação ética, que abranja estratégias pedagógicas valorizadoras da honestidade acadêmica.

 

Quando se trata de textos públicos, como artigos de periódico, livros e dissertações ou teses, em que se pressupõe um autor familiarizado com as regras da comunicação científica, remediar o plágio pode envolver medidas de grande proporção — retratações, processos por possível infração de direitos autorais, exonerações, humilhação pública.Casos ocorridos no Brasil e no exterior registram desde opagamento de multas por violação de direitos autorais até a perda de títulos devido a publicações contendo plágio.[5] A consequência inescapável do plágio, porém, é a total perda de crédito e confiabilidade do plagiador perante seus pares.

 

Já no ambiente de sala de aula, como entre alunos da educação básica e de graduação, lidar com casos de cópia por estudantes deve envolver cuidados pedagógicos, especialmente quando se trata de plágio por ignorância ou domínio incipiente das normas de registro das fontes consultadas. Nesse campo, as infrações éticas podem ter as mais distintas motivações — desde o desinteresse pela aula e pela atividade proposta até o desconhecimento das regras básicas de escrita. Nesse contexto, portanto, lidar com o plágio, assim como com outras infrações textuais, requer medidas mais educativas que, simplesmente, punitivas.A aposta é que a formação ética de escritores leve à existência de autores cientes das normas de reconhecimento e registro das fontes.[6]

 

O combate ao plágio insere-se no debate sobre a dimensão ética da escrita e a integridade acadêmica (DINIZ, 2008), mas também sobre a própria qualidade da educação. Para garantir que o exercício da cidadania previsto no art. 2º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, assim como no inciso I do art. 43 da referida lei, que prevê “o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo”(BRASIL, 2010, p. 35), se torne realidade, é necessário que estudantes, professores, pesquisadores e poder público se comprometam com a educação ofertada nas salas de aula, desde a educação básica até os cursos de pós-graduação. Uma das questões fundamentais que isso implica é discutir a integridade na escrita e prevenir e combater o plágio, tanto entre pesquisadores experientes como entre estudantes de diferentes níveis de ensino.

 

 

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Pesquisa na escola: o que é, como se faz. 20. ed. São Paulo: Loyola, 2006. 102p. 

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. 5. ed. Brasília: [Câmara dos Deputados], Coordenação Edições Câmara, 2010. 64p. Disponível em: <http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/2762/ldb_5ed.pdf>. Acesso em: 26 jan. 2013.

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico(CNPq). Relatório da Comissão de Integridade de Pesquisa do CNPq. 2011. Disponível em: <http://www.cnpq.br/documents/10157/a8927840-2b8f-43b9-8962-5a2ccfa74dda>. Acesso em: 28 jan. 2013.

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior(CAPES). Orientações Capes: combate ao plágio. Brasília, 4 jan. 2011. Disponível em: <http://capes.gov.br/images/stories/download/diversos/OrientacoesCapes_CombateAoPlagio.pdf>. Acesso em: 24 jan. 2013.

Declaração conjunta sobre integridade em pesquisa do II Encontro Brasileiro de Integridade em Pesquisa, Ética na Ciência e em Publicações (II BRISPE),28 Maio-01 de Junho de 2012.Dados, v. 55, n. 2, p. 555-560, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/dados/v55n2/a09v55n2.pdf>. Acesso em: 26 jan. 2013.

DINIZ, Debora. A ética e o ethos da comunicação científica. In: DINIZ, Debora et al. Ética em pesquisa:experiência de treinamento de países sul-africanos. 2. ed. rev. ampl. Brasília: LetrasLivres/UnB, 2008. p. 171-180.

______. Carta de uma orientadora: o primeiro projeto de pesquisa. Brasília: LetrasLivres, 2012. 108p. 

DINIZ, Debora; MUNHOZ, Ana Terra Mejia. Cópia e pastiche: plágio na comunicação científica.Argumentum, Vitória (ES), v. 1, n. 3, p. 11-28, jan./jun. 2011. Disponível em: <http://periodicos.ufes.br/argumentum/article/view/1430/1161>. Acesso em: 26 jan. 2013.

MUNHOZ, Ana Terra Mejia; DINIZ, Debora. Nem tudo é plágio, nem todo plágio é igual: infrações éticas na comunicação científica.Argumentum, Vitória (ES), v. 1, n. 3, p. 50-55, jan./jun. 2011. Disponível em: <http://periodicos.ufes.br/argumentum/article/view/1434/1162>. Acesso em: 24 jan. 2013.

ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL. Proposta de adoção de medidas para prevenção do plágio nas instituições de ensino e do comércio ilegal de monografias. Proposição 2010.19.07379-01. 19 de out. de 2010. Origem: Ricardo Bacelar Paiva. Relator: Conselheiro Federal José Norberto Lopes Campelo. Comissão Nacional de Relações Institucionais do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Disponível em: <http://www.ucb.br/sites/000/20/CombatePlagioDocumentoOAB.pdf>. Acesso em: 24 jan. 2013.

PAIVA, Juliana Medeiros. Resenha do livro: "Carta de uma Orientadora: o primeiro projeto de pesquisa".  18 out. 2012. Disponível em: <http://foiplagio.blogspot.com.br/2012/10/resenha-do-livro-carta-de-uma.html>. Acesso em: 26 jan. 2013.

VASCONCELOS, Sonia. Plágio em ciência. Oficina de divulgação para cientistas. Rio de Janeiro: Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 9 dez. 2011. Disponível em: <http://www.icb.ufrj.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=624&si



 

[1]Estudante de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais — Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

[2]Linguista e pesquisadora da Anis — Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero. Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

[3]Se de um lado o plágio é consensualmente considerado uma infração, de outro, defini-lo nem sempre é tarefa fácil, pois podem existir divergências na sua conceituação (VASCONCELOS, 2011). A complexidade do tema está não apenas na sua definição, mas também na sua prevenção, correção e punição.

[4]No meio acadêmico, são registradas várias outras infrações relacionadas à autoria, como autoria fantasma, autoria compadrio, autoria feijoada e autoplágio. Essas práticas, apesar de também serem violações éticas, não se enquadram no conceito de plágio (DINIZ e MUNHOZ, 2011).

[5]Casos nacionais e internacionais podem ser encontrados no blog Foi Plágio: www.foiplagio.blogspot.com. Também a página do COPE (Comitê de Ética na Publicação, na sigla em inglês) divulga uma série de casos discutidos pelo comitê desde sua fundação, em 1997: http://publicationethics.org/category/keywords/plagiarism.

[6]Como exemplos, citamos dois livros que podem auxiliar professores na conscientização de estudantes sobre o processo de escrita e o respeito às normas bibliográficas: um é sobre pesquisa na escola, de Marcos Bagno (2006), voltado para a educação básica; outro é uma carta às orientandas, de Debora Diniz (2012), voltado para a graduação.Para uma resenha de Diniz (2012), ver Paiva (2012).

 
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INSCRIÇÕES PARA O 10º CBLA CONGESTIONAM O SISTEMA NO ÚLTIMO DIA

 

No último dia para a submissão de trabalhos para o 10 CBLA, vários associados não conseguiram completar suas submissões, por conta do congestionamento que aconteceu no sistema. Sendo assim, a diretoria da ALAB garante que todos os associados que estejam com a anuidade em dia até o dia 20 de dezembro, prazo de encerramento da submissão de trabalhos, terão seu direito à submissão garantido.

 

Para isso, estamos mantendo o sistema de envio de trabalhos aberto, para que aqueles que já estejam com a anuidade quitada consigam submeter seu trabalho nos próximos dias. Se até o dia 2 de janeiro algum associado, dentro das condições descritas acima, ainda apresentar dificuldades com a submissão, pedimos que escreva para Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. relatando o problema. TODOS OS CASOS SERÃO ATENDIDOS. Nenhum participante que esteja com a anuidade de 2012 quitada até o dia 20 de dezembro e que não tenha conseguido submeter trabalho por problemas técnicos será prejudicado. No entanto, pedimos paciência, pois possivelmente os emails só voltarão a ser respondidos a partir do dia 5 de janeiro. No entanto, repito: TODOS OS CASOS SERÃO ATENDIDOS - mesmo que fora do prazo.

 

Aproveitamos para lembrar que o site da ALAB e o site do evento são diferentes:

 

- site da ALAB: www.alab.org.br (acesso com nome de usuário e senha)

- site do 10º CBLA: aceso via banner no site da ALAB ou digitando www.alab.org.br/eventosalab/evento/?id=39 (acesso com CPF e senha - a mesma do site da ALAB)

 

Agradecemos a compreensão, pedimos desculpas por eventuais transtornos e desejamos a tod@s Boas Festas, esperando poder encontrá-l@s pessoalmente no Rio de Janeiro em setembro!

 

Rogério Tilio

Tesoureiro ALAB

 
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UFRJ PROMOVE EVENTO CONTRA DISCRIMINAÇÃO DE PESSOAS LGBT

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ENTRE OS DIAS 4 E 10 DE DEZEMBRO A UFRJ PROMEVE ATIVIDADES PARA O ENFRENTAMENTO DA DISCRIMINAÇÃO DE PESSOAS LGBT

 

As Instituições de Ensino Superior, entre elas a própria UFRJ, têm sido constantemente palco de discursos e práticas de violência e discriminação por orientação sexual e identidades de gênero. Entre os dias 4 e 10 de dezembro de 2012, a UFRJ será invadida por debates, exposições, dança, filmes, mesas-redondas e palestras que discutirão a presença, os desafios, o direito e as potencialidades de identidades LGBT no ensino superior. A campanha Por Uma UFRJ para Todxs acontecerá em várias unidades da UFRJ e pretende reunir estudantes, professorxs, funcionárixs e a comunidade em geral na construção de uma universidade pública de acesso universal, igualitário e humanizado! Confira abaixo a programação:

 

DIA 4 DE DEZEMBRO DE 2012:

ABERTURA ÀS 14 HORAS no Hall da Reitoria

INTERVENÇÕES ARTÍSTICAS:

1.     Apresentação do grupo de dança contemporânea P24 com o espetáculo (V)ivo - Local: Hall da Reitoria 

2.     Inauguração das exposições Cartografias da Violência e Mães Pela Igualdade com debate por Georgina Martins - Local: Hall da Reitoria

FILMEDEBATE ÀS 17:30

·         Desejo Proibido- Debatedor: Marcos Vinícius Torres (UFRJ) - Local: Salão Nobre da Faculdade Nacional de Direito (Centro)

DIA 5 DE DEZEMBRO DE 2012:

MESAS REDONDAS

1.     Transexualidade, Direitos Humanos e Educação - com Berenice Bento (UFRN), Guilherme Almeida (UFRJ) e Mariah Rafaela Silva (UFRJ) - Local: Auditório Pedro Calmon, Praia Vermelha às 13:00.

2.     Lesbo/homofobia: aspectos históricos, sociais, legais e educacionais - com Bruna Irineu (UFT), Luan Cassal (UFRJ) e Patrícia Sanches (OAB-RJ) - Local: Salão Nobre da Faculdade Nacional de Direito (Centro) às 17:30. 

DIA 06 DE DEZEMBRO DE 2012:

MESA REDONDA:

·         Transrevolução na educação - com Alessandra Ramos e Indianara Siqueira (grupo Transrevolução) e Fátima Lima (UFRJ) - Local: Auditório Pedro Calmon, Praia Vermelha às 13:00.

FILMEDEBATE:

·         Uma garota como eu: a história de Gwen Araújo - Debatedor: Berenice Bento (UFRN) - Local: Auditório do Instituto de Psicologia (Sala 2) - Praia Vermelha às 15:30.

DIA 10 DE DEZEMBRO DE 2012


PALESTRA:

·         Autobiografia e resistência com João W. Nery e Bianca Figueira - Local: Auditório G1 da Faculdade de Letras às 15:00.

 

 
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ENTREVISTA COM KANAVILLIL RAJAGOPALAN: ponderações sobre linguística aplicada, política linguística e ensino-aprendizagem

SILVA, K. A.; SANTOS, L. I. S.; JUSTINA, O. D.Entrevista com Kanavillil Rajagopalan: ponderações sobre linguística aplicada, política linguística e ensino-aprendizagem.Revista de Letras Norte@mentos – Revista de Estudos Linguísticos e Literários.Edição 08 – Estudos Linguísticos 2011/02. Disponível em: http://projetos.unemat-net.br/revistas_eletronicas/index.php/norteamentos

 

Kanavillil Rajagopalan é um estudioso da área de linguística. Por seu trabalho profícuo na área da linguagem, conquistou grande respeito nacional e internacional.  Rajan, como conhecido no meio acadêmico, atualmente é professor titular da UNICAMP e tem o seu interesse como pesquisador especialmente voltado para questões que abrangem política linguística. Seu percurso de formação acadêmica foi trilhado na Universidade de Kerala (1966), com o curso de Bacharelado em Literatura Inglesa e na Universidade de Delhi, onde concluiu dois cursos de mestrado: Literatura Inglesa (1970) e Linguística (1973). Também diplomou-se em Linguística Aplicada pela Universidade de Edinburgo (1975). Pela PUC/SP (1982) obteve o título de Doutor em Linguística Aplicada e pela Universidade da Califórnia (1993) o Pós-Doutorado em Filosofia da Linguagem. Escreveu e organizou vários livros: Por uma linguística crítica: linguagem, identidade e a questão ética, A Geopolítica do Inglês, A língua que nos faz falhar, Nova Pragmática – Fases e Feições do Saber, entre outros. 

 

O Professor Rajan nos concedeu gentilmente esta entrevista no dia 05 de outubro quando esteve presente em Sinop para palestrar no IX Colóquio Nacional de Estudos Linguísticos e Literários e II Colóquio Regional de Linguística Aplicada – “Linguagem, Ciência e Ensino: desafios regionais e globais” realizado pelo Curso de Letras da UNEMAT e a ALAB.

Aqui ele discute sobre linguística aplicada, língua e linguagem e ensino/aprendizagem de línguas. Também transitam suas acepções sobre mestiçagem e realidade linguística no mundo globalizado onde o conhecimento das políticas linguísticas é fator crucial para melhor entender, lidar e ensinar as línguas que fazem parte do nosso contexto.

 

 

Silva, Santos e Justina: O que é fazer linguística aplicada na contemporaneidade?

Rajan: Linguística aplicada, para mim, nada mais é do que pensar a linguagem no âmbito da vida cotidiana que nós estamos levando. Não fazendo grandes elucubrações. Daí, a diferença entre a linguística dita teórica e a linguística aplicada.  É pensar, não como se pensou durante muito tempo: levar a teoria para a vida prática. Mais que isso, é usar a prática como próprio palco de criação de reflexões teóricas, ou seja, neste âmbito teoria e prática não são coisas diferentes. A teoria é relevante para a prática porque é concebida dentro da prática. Então, eu acho que há um consenso crescente, entre mesmo os ditos teóricos, de que é preciso repensar a forma como se conduzia a teoria. Tradicionalmente teoria se fazia de modo Socrático, olhando para o céu, desvinculado da realidade. Isso não tem o menor sentido. Temos que voltar os nossos pensamentos para o mundo que estamos vendo, vivendo. É através da vivência dentro desse mundo que nós temos que pensar, quer dizer que, não há teoria que seja one side speaks all, ou seja, uma teoria pronta para qualquer situação. Toda realidade, toda circunstância exige novas complexões teóricas. Isso pra mim é linguística aplicada.

 

Silva, Santos e Justina: Partindo dessa ideia de que a linguística aplicada tem como objeto de estudo a linguagem, qual a concepção que o senhor defende de língua e linguagem?

 

Rajan: A linguagem é aquilo que a gente vive, é nossa vivência, não se restringe à língua. Linguagem é um conceito muito mais amplo que língua. Língua faz parte, e nem sei se a língua faz parte essencial da linguagem, do âmbito da linguagem. A linguagem é o nosso modo de lidar com as nossas circunstâncias, a nossa sociedade, a nossa inserção dentro da sociedade. Portanto, tudo dentro do mundo é mediado pela linguagem, então pra mim linguagem é tudo.

 

Silva, Santos e Justina: Hoje nós temos no Brasil a ALAB, que é a Associação de Linguística Aplicada do Brasil, que tem como objetivo justamente disseminar as pesquisas feitas no bojo da linguística aplicada brasileira. Como o senhor concebe a ALAB como veículo de disseminação desses conhecimentos acadêmico- científicos?

 

Rajan: Bom, basta ver a forma ativa que a ALAB tem produzido no país. A cada ano, o número de sócios e de simpatizantes que são atraídos pela ALAB é uma coisa impressionante.  Tanto assim, que o mundo reconheceu isso. A AILA, que é a Associação Internacional de Linguística Aplicada, reconheceu isso e premiou o país com o evento em 2017. Isso é a prova mais contundente de que nós saímos do anonimato, entre aspas, para o mundo.  Nós ganhamos a visibilidade perante o mundo, nós temos uma robustez nesse pensamento em nosso país. Isso é motivo de alegria para todos nós.

 

Silva, Santos e Justina: Como o professor fez menção agora que a AILA será realizada no Brasil em 2017, como o senhor vê o impacto da realização deste congresso internacional no Rio de Janeiro em 2017? Qual será esse impacto para a sociedade brasileira?

 

Rajan: Com certeza, o primeiro resultado mais concreto que se pode imaginar é a divulgação que a linguística aplicada vai ter nesse país. Pensou-se durante muito tempo, e ainda há resquícios desse modo de pensar, pois há pessoas que acham que linguística aplicada é uma forma caudatária do pensamento linguístico-teórico.  Com esse evento, eu acho que a linguística aplicada vai ganhar ainda mais visibilidade dentro do país e reconhecimento acadêmico.

 

Silva, Santos e Justina: Professor Rajan, a ALAB hoje está preocupada em realizar congressos nacionais e regionais. Como o senhor vê as empreitadas acadêmicas de congressos regionais tais como esse realizado aqui em Sinop?

 

Rajan: Bom, com essa mesma linha de pensamento que eu mencionei agora há pouco, eu sou inteiramente a favor. Eu acabei de dizer que o que torna a linguística aplicada interessante é que ela pensa a linguagem dentro do próprio contexto. Você pode falar que o Brasil é uma abstração feita, passando por cima de tantas diferenças regionais que nós temos, não são diferenças, são peculiaridades regionais.  Então, estou sendo apenas coerente quando defendo essa ideia de que cada vez mais a gente tem que levar esse conhecimento e produzir conhecimentos adaptados para cada região, cada lugar, cada realidade. Cada um de nós, apesar de vivermos no mesmo país, temos realidades imediatas diferentes. Assim, como nossas circunstâncias são diferentes, nossas situações são diferentes. Então, a gente tem que pensar linguística aplicada também regionalmente sim.

 

Silva, Santos e Justina: Nós sabemos que o professor tem desenvolvido várias pesquisas, que são muito interessantes para a área de linguística aplicada tanto em cenário brasileiro quanto no exterior. Quais são seus focos de pesquisa? O que o senhor tem investigado recentemente e qual a importância dessas pesquisas para uma reconstrução de uma nova identidade na área de linguística aplicada?

 

Rajan: Bom, nos últimos dez anos, como vocês sabem muito bem, eu tenho trabalhado muito, cada vez mais intensamente na área chamada política linguística.  Nesse ano mesmo, eu participei de quatro ou cinco congressos internacionais todos eles voltados para a política linguística. Então, seguramente o que me atrai cada vez mais, é o campo de política linguística. Tanto assim, que hoje em dia eu digo, por exemplo, quanto ao campo de ensino de línguas, que é apenas uma das tantas manifestações de uma política linguística. Historicamente a gente cometeu um grande erro de pensar que o ensino de línguas só dependia do conhecimento da língua. Portanto, a linguística era concebida como uma área teórica que procurava entender o que é, desvendar os mistérios da língua resolveria todo o problema. Na melhor das hipóteses a gente pensava: “linguista sozinho não conseguiria dar conta, então  vamos chamar o pedagogo”. Pedagogia também não dava. Ou seja, eram campos distintos trabalhando e a gente tentava fazer um arranjo. Não é isso! Hoje em dia, internacionalmente há pessoas que cada vez mais pensam que a politica linguística implica qualquer pensar sobre ensino de línguas no país, quer seja da língua materna, quer seja da língua estrangeira, tem que ser colocado, antes de mais nada, no contexto da macropolítica que o país tem. Eu participo de uma comunidade virtual que opera internacionalmente e que tem pessoas de todo tipo de lugar: Estados Unidos, Canadá, México, Oriente Médio, Israel, Egito e Ásia também. A gente troca intensamente trabalhos e procura se encontrar nos congressos internacionais. A exemplo de AILA, a minha participação foi com esse grupo neste ano, há dois meses atrás. Agora em novembro eu estarei em Nova Zelândia para participar em outro congresso e encontrarei com o pessoal desse grupo. A gente está, cada vez mais, percebendo que não adianta uma série de atividades relacionadas à língua sem pensar em política linguística. Então, resumindo, a área de maior interesse hoje em dia é a de politica linguística.

 

Silva, Santos e Justina: Hoje nós estamos inseridos dentro de uma sociedade globalizada onde o ensino de línguas estrangeiras está em alta. Há algumas políticas que estão sendo feitas, tanto pelo estado quanto pelos municípios para inserção da língua estrangeira para crianças. O senhor é a favor ou contra o ensino/aprendizagem de línguas estrangeiras para crianças de escolas públicas brasileiras?

 

Rajan: Essa pergunta não pode ser respondida com sim ou não, não é uma pergunta tão fácil.  Eu digo, a questão mais importante não é que idade deve começar. Há opiniões de que com crianças muito pequenas não se pode trabalhar com a cabecinha delas. Eu digo que a questão não é essa. A gente tem que pensar  o ensino/aprendizagem de línguas no contexto maior, ou seja, é uma sociedade.  Ensino de língua não é brincadeira. Nesse contexto que nós estamos vivendo, o contexto de globalização, países estão investindo pesadamente nesta questão. Então, a gente tem que perguntar para que a sociedade brasileira precisa que seus cidadãos tenham acesso às línguas? Isso é uma questão de geopolítica. Se o Brasil precisa de línguas, então a gente tem que pensar nesta questão. Uma vez estabelecida a prioridade, a gente tem que perguntar:  qual a maneira melhor, quais os métodos a serem usados?  Voltando à sua pergunta em relação a qual idade, não dá para afirmar se é interessante começar o ensino de língua com quatro anos com uma família do campo, de um lugar qualquer que não tem nenhuma perspectiva de entrar em contato com estrangeiro ou que possa ter qualquer utilidade, talvez nem precise disso. Então, é tolice tentar com uma criança sendo criada no campo, com finalidade nada mais que isso, ensinar língua estrangeira. Língua materna sim, todos nós precisamos saber. Então, há circunstâncias e circunstâncias, há casos em que as crianças aprendem naturalmente. Eu mesmo sou exemplo vivo, eu fui criado falando três, quatro idiomas e nem sequer sabia que eu estava falando quatro idiomas. Para mim era uma só língua. Então, eu volto a enfatizar: não há uma solução muito simples. Agora, eu rechaço completamente a ideia defendida por alguns estudiosos de que tem que ter, no mínimo, uma idade qualquer. Não, não tem. Criança é muito mais esperta do que a gente pensa, criança não é um infante sem fala, deixe a criança sozinha que ela tem condições.

 

Silva, Santos e Justina: Professor, a penúltima pergunta  se refere à formação de professores. Hoje, no contexto brasileiro, nós temos os Cursos de Letras e as políticas de formação não inserem a educação linguística para crianças, o professor acha que seria interessante uma reformulação nas políticas de formação de professores para trabalhar com esta questão?

 

Rajan: Conforme eu disse, isso só vai acontecer, se a gente perceber e agir de acordo com essa percepção nítida entre política linguística e o ensino de línguas. Acho que precisamos atrelar as duas coisas cada vez mais. A gente tem que pensar o ensino de línguas desde a abordagem, a metodologia a ser adotada em função da política linguística adotada no país. Portanto, é o que eu digo, um professor na sala de aula tem a necessidade de atuar politicamente sim.  É seu dever enquanto cidadão atuar politicamente e inclusive pensar a respeito de como a língua deve ser, qual o lugar que a língua estrangeira deve ocupar na política geral. Isso é um direito, um dever de cada cidadão, inclusive do professor na sala de aula. Não dá para escapar disso.

 

Silva, Santos e Justina: Então, agora a última pergunta, partindo da ideia que o senhor já desenvolveu várias pesquisas dentro da área da linguística aplicada, talvez podendo trazer para nós algumas prospecções de futuras pesquisas na área, o que considera de suma importância, podendo indicar para os leitores da Revista Norte@mentos? Que pesquisas ou que eixos teóricos ou epistemológicos deveriam ser desenvolvidos nas pesquisas?

 

Rajan: O grande desafio que nós temos hoje é repensar o próprio conceito de língua. Estou convencido de que muitos de nós, sem saber, estamos repetindo, quando discutimos língua, conceitos de categorias herdadas do século passado. Nem somente do século XX, mas o século XIX ainda marca sua presença. Por exemplo, conforme eu venho falando sobre a resistência quanto às línguas hibridas. Eu até chamo de mestiçagem linguística. Por exemplo, muita gente estranha a expressão portunhol. Portunhol, que é isto? Ou se fala português ou espanhol? Portunhol não é um “bicho” que você está imaginando. O mundo inteiro está presenciando fenômenos parecidos com o Spanglish, nos Estados Unidos, que mistura espanhol e inglês.  Há o Franglês no Canadá, por exemplo. Hindinglish na India, misturando o Inglês com o hindi.Isso é natural, assim como é natural na própria raça humana a mestiçagem. Sempre existiu e sempre existirá. O Brasil é a prova mais impressionante dessa experiência com a raça humana. É uma mistura, um caldeirão que a gente criou. Isto inevitavelmente vai acontecer com a língua também. Agora, se pessoas ainda resistem a essas línguas mistas, é porque nós temos ideias pré-concebidas herdadas do século XIX. O grande desafio para a linguística aplicada, portanto, eu acho, que é começar da estaca zero, talvez mudar, eu quero dizer, pensar, se desvencilhar das nossas ideias herdadas de outros do século passado. Devemos tentar pensar a linguagem e outros modos, outras maneiras mais adequadas para o nosso tempo.

 
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ALAB entrega carta de reivindicações elaborada pelo GT da ANPOLL "Ensino e Aprendizagem na Perspectiva da Linguística Aplicada” acerca do Ensino de Inglês na Rede Pública do Ensino Básico

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Durante a abertura do ENCONTRO DA REDE NACIONAL DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA: LÍNGUAS ESTRANGEIRAS / ADICIONAIS – ETAPA INGLÊS, nos dias 23 e 24 de agosto do corrente ano, a pedido do Grupo de Trabalho da ANPOLL"Ensino e Aprendizagem na Perspectiva da Linguística Aplicada”, foi entregue à Diretora de Currículos e Educação Integral do MEC, Profª Jaqueline Moll, uma carta, cujo objetivo é pautar alguns itens importantes para o aprimoramento  do ensino do inglês na Rede Pública do Ensino Básico Brasileiro. Veja a carta na íntegra ao final desta notícia.

O Encontro da Rede Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, que contou com a participação de quase todas as unidades federativas, representadas por professores universitários formadores de professores de inglês para a educação básica, teve por objetivos:

· possibilitar reflexões sobre o ensino de línguas no Brasil e o papel das universidades no que se refere à formação inicial e continuada de professores;

· formalizar a constituição de uma rede nacional de universidades públicas que desenvolverão ações coordenadas para a formação de professores e ampliação de oportunidades de aprendizagem por parte dos alunos;

· sugerir a estrutura da rede e seu modo de atuação, com sugestões para ações imediatas e a longo prazo;

· elaborar proposta de formação continuada para professores de língua inglesa atuantes nos programas Mais Educação e EM Inovador, com vistas à melhoria dos processos de aprendizagem em contexto escolar, propondo soluções para os problemas detectados (exclusão social, baixo IDEB, etc);

· finalizar organização do Seminário Nacional de Formação de Professores da Educação Básica, em que representantes de todas as Secretarias Estaduais de Educação e Undimes (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), bem como professores formadores de todas as unidades da federação, serão convidados a estarem presentes para a consolidação de um Programa Nacional de Formação Continuada de Professores de Inglês.

Espera-se que, já para 2013, várias ações por parte do MEC, em conjunto com universidades com tradição em pesquisa de formação de professores, sejam implementadas no sentido de mudar o cenário de educação em línguas, tanto em inglês, como em espanhol.

Carta ao MEC

 


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