| A prova de LE no ENEM e seu efeito retroativo no Ensino Básico da Escola Pública Brasileira |
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Sabemos que nada ocorre em um vácuo social e não poderia ser diferente com relação à moção em favor do uso da língua-alvo nos enunciados do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), veiculada pela ALAB e ABRAPUI.
Assim sendo, nós, diretores da ALAB, pensamos ser necessário e coerente que coloquemos essa ação de forma mais concretamente contextualizada, para que possamos mais efetivamente instaurar um processo de reflexão e mobilização em torno desta e de outras questões relacionadas ao ensino de línguas na escolar regular em nosso país.
O referido abaixo-assinado segue favorável a uma ação de caráter pontual, que está diretamente ligada a um campo de ação maior em torno do ensino e da avaliação em línguas estrangeiras, que vem sendo desenvolvida por órgãos governamentais, em parceria com Universidades Públicas. Desse modo, pensamos ser essa uma possibilidade de iniciar movimentos que dessem vazão a mobilizações diversas que possam vir, a médio ou longo prazo, promover mudanças positivas no cenário do ensino de línguas nas escolas públicas brasileiras, rumo a um ensino-aprendizagem de natureza formativa, que possibilite o desenvolvimento de saberes, competências e capacidades, na língua-alvo e desenvolvidas por meio dela, que por sua vez permitam ao indivíduo atuar de modo ativo e crítico em diversos campos e esferas sociais na atualidade.
Dizer que a sociedade contemporânea sofre os impactos da globalização e das novas tecnologias de comunicação e informação, o que tem forte influência nas relações humanas e, portanto, também na educação, seus objetivos e metas, seria afirmar o óbvio. Isto posto, resta-nos enfatizar a necessidade de continuamente repensarmos as perspectivas epistemológicas e ontológicas que orientam nossas ações no campo educacional, buscando minimizar a lacuna entre o mundo e a sala de aula. No que diz respeito ao ensino de línguas na escola regular, sabemos que se faz urgente materializarmos teorizações que defendem que a aprendizagem deva ser significativa, o que, entre muitos outros fatores, implica envolver seus participantes em situações de uso da língua que se aproximem, o máximo possível, das interações que marcam as relações humanas na contemporaneidade.
Deste modo, parece-nos dispensável dizer que as práticas de sala de aula no campo de línguas estrangeiras devam contemplar as múltiplas formas e modos de construção de sentidos que permeiam nossa relação com o mundo e com o outro em nossa sociedade.
De modo bastante resumido, no que diz respeito ao Ensino Médio, foco da referida moção, apoiamos correntes que defendem um ensino voltado ao trabalho à linguagem oral, escrita e muldimodal e que, naturalmente, atenda às necessidades locais do contexto no qual o processo educativo encontra-se inserido.
Nessa perspectiva, entendemos também ser importante, ao final desse segmento, que alunos tenham vivenciado uma diversidade de situações que reflitam atividades sociais diversas, pertinentes à formação cidadã no mundo contemporâneo, ao mesmo tempo que tenham, consequentemente, sido expostos a uma gama ampla e variada de gêneros (orais, escritos e multimodais), desenvolvendo saberes, competências e capacidades necessárias para agirem em espaços em que esses circulam, de modo ativo e crítico.
Não se faz necessário dizer que essa forma de ver o ensino e a aprendizagem remete ao trabalho com a leitura, a oralidade e a escrita em língua estrangeira. A maneira de articular esses eixos de conteúdos não é única, evidentemente, assim como não são estanques e fechadas as perspectivas que podem orientar o processo.
O que se mostra primário, a nosso ver, é que busquemos continuamente pensar nas formas como nos relacionamos com as pessoas em nossa sociedade, nos modos em que são construídas, mantidas e/ou refutadas relações de poder, nas formas e posicionamentos acerca da construção de conhecimentos e do que seja considerado conhecimento no meio em que vivemos, lembrando que tudo isso pode ser visto por diferentes ângulos e, portanto, pode favorecer ou desfavorecer certos grupos. Um ensino e uma aprendizagem efetivas, na área de línguas estrangeiras, recaem no desenvolvimento do que seja necessário para que o cidadão seja capaz de transitar pelos espaços que necessite e deseje, fazendo uso da língua-alvo, adequando-se, portanto, às regras sociais que marcam tais espaços, ao mesmo tempo que vise e promova transformações, em direção a uma organização social que se revele mais ética e justa. Nesse caso, torna-se evidente a importância do desenvolvimento de uma diversidade de letramentos, entre os quais certamente encontram-se presentes os letramentos críticos e os letramentos em língua estrangeira.
Nessa direção, reconhecemos que apoiar o uso da língua-alvo no ENEM deva ser algo a ser relacionado a outras questões, para que faça sentido. A esse respeito, é primeiramente importante dizer que temos ciência de que, para ser efetiva, ações como a que defendemos na moção não ocorrem ou podem ser vistas de forma isolada. Medidas mais diretamente atreladas a políticas públicas, nos campos socioeconômico, por exemplo, mostram-se necessárias.
Temos também ciência de que essa ação, por si só, não tem como resolver os problemas que encontramos na educação. Não é essa nossa intenção. Defendemos essa causa por considerar que, ao final do EM o aluno deva ter aprendido a reconhecer e a lidar com diferentes gêneros, conforme já mencionado, entre os quais encontram-se gêneros escolares, como é o caso dos enunciados em avaliações. Essa pode ser também considerada uma forma efetiva de avaliação de leitura.
Levando-se em consideração o potencial efeito retroativo do ENEM, compreendemos que o fato de esses enunciados serem na língua-alvo poderia enfatizar a importância do trabalho em leitura com diferentes gêneros e também ampliar, quantitativa e qualitativamente, a exposição do aluno à língua estrangeira. Ainda nessa perspectiva, essa mobilização pode efetivamente abrir espaços de interlocução que envolvam a reflexão e a ação em torno de variados aspectos que são basilares para melhorias nesse campo, entre eles, as habilidades a serem focalizadas, os tipos e níveis de proficiências que almejamos desenvolver, o papel da língua materna no processo, as restrições no âmbito da formação docente e de sua proficiência na língua-alvo que ensina, etc.
Acima de tudo, defendemos essa causa por entender que é um evidente início para mobilizações futuras, que visem igualmente à desestabilização e, consequentemente, à reorganização de modos e formas de tratar o ensino e a aprendizagem de línguas na escola regular em nosso país.
Reiteramos que o documento foi iniciado em nome da diretoria, uma vez que para falar em nome dos associados seria preciso haver unanimidade (não bastaria sequer a maioria, acreditamos). Sendo assim, aqueles associados que se identificarem com a causa, assinam. O objetivo é, justamente, promover um debate na comunidade acadêmica. Não se trata, neste momento, de uma negociação de políticas públicas, mas apenas de um levantamento.
O abaixo-assinado nasceu da sugestão de uma associada, sendo que qualquer associado pode fazer o mesmo, ou até mesmo escrever uma notícia, defendendo um dos lados da questão, para ser publicada no site da ALAB.
Respostas e comentários a esta matéria:
Algumas reflexões sobre a proposta da ALAB para o ENEM - Ricardo Almeida (UFF)
Em defesa do ensino de lnguas estrangeiras de qualidade - Vera Menezes (UFMG).pdf
Diante de tantas trocas de ideias - Walkyria Magno e Silva (UFPA).pdf
Estudando questões relativas à avaliação há algum tempo - Matilde Scaramucci - UNICAMP
Para além da leitura - Ricardo Almeida - UFF
Deixo aqui minhas considerações - Elaine Borges (UEPG)
Para dar continuidade à discussão acerca da moção iniciada pela ALAB - Kaciana Fernandes (CEFET/MG)
Venho acompanhando a discussão sobre o ENEM - Laura Miccoli (UFMG)
Minhas impressões - Ana Emilia Fajardo Turbin (UFT)
A discussão está boa e não se trata de polarizar - Elaine Borges (UEPG)
Ao ler os vários posicionamentos acerca do uso ou não da língua alvo no ENEM - Rosely Xavier (UFSC)
Reflexões sobre o ensino de língua inglesa na escola pública - Maria Aparecida Moreira (CPII)
Ingles ruim faz aluno brasileiro perder bolsa em universidade top - Folha de São Paulo
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Inscrição XCBLA
O pagamento de inscrições para o X CBLA será feito a partir de 15/03/2013.




